A Vida Não é Curta, Você Está Vivendo Errado | Filosofia & Psicologia

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Como tem sido seu ano? Ou como você espera que seja seu ano?

Como tem sido a sua relação com o seu tempo? Você já sentiu que o seu dia foi roubado?

Então vamos lá. Você acorda, pisca, toma um café que queima sua língua, curte um

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vídeo de modoso no Instagram, responde três mensagens que não viraram uma reunião, fica preso no trânsito, participa de uma reunião que poderia ter sido uma mensagem e quando você olha pela janela, pronto, já tá de noite. O domingo tem gosto de segunda-feira de manhã e o ano que pareceu uma estrada

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infinita em janeiro, virou um susto em dezembro. A gente vive com essa sensação crônica coçando a alma de que estamos sempre atrasados.

Mas atrasados para que exatamente para morrer. Porque biologicamente falando, essa é a única

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linha de chegada garantida na existência. A gente criou a máquina de lavar, o microondas, o Pix, o chat de GPT, o carro autônomo, o delivery de comida que chega antes de você sentir fome.

E a promessa era clara, tava no contrato social da modernidade. A humanidade desenvolve a tecnologia e em

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troca você tem tempo livre para contemplar a existência, escrever poesias, aprender a tocar o colê-lhe, mas aconteceu o contrário, porque quanto mais economizamos tempo com tecnologia, menos tempo sentimos ter. Mas foi para

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esse tempo que a gente economizou? Será que existe algum banco na Suíça acumulando os minutos que eu não gastei lavando roupa na mão?

E se eu te falasse que o relógio não tá marcando a passagem das horas, mas sim a sua dissolução. E se essa forma neurótica de olhar pro tempo como algo que a gente gasta, investe, perde ou ganha, for apenas uma

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alucinação coletiva para nos proteger de uma verdade muito mais indigesta. Sejam muito bem-vindos ao Paradigmas.

Eu me chamo Felipe e hoje nós vamos cometer o erro de olhar pro relógio e ver o que que ele esconde atrás dos ponteiros. [música] Mas antes da gente entrar nesse buraco de coelho, eu te fazer uma

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proposta meio indecente. Investe esse milésimo desse seu tempo escasso para clicar no botão de se inscrever.

É de graça, não engorda. Aa garante que o algoritmo te entregue mais crises existenciais de qualidade como essa.

Se você já é de casa, então deixa seu like.

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É a única moeda que valida a existência digital. Feito?

Então, respira fundo e vamos lá. A gente adora achar que inventou ansiedade.

A gente acha que ansiedade veio de brinde por causa dessa sociedade pós-moderna acelerada, mas não

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é bem assim. A ansiedade ela é retrô, ela é vintage, ela é clássica.

Então vamos olhar pro século 4 e falar com um cara chamado Aurélio Agostinho. Talvez você conheça ele como Santo Agostinho, mas para fins desse vídeo vamos encará-lo não como o santo do altar, mas

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como o primeiro ser humano a ter uma crise de pânico documentado sobre a natureza do tempo. Austinho olhou pro céu, olhou para dentro de si e percebeu uma trambicagem cósmica.

Ele escreveu nas suas confissões algo que parece uma piada de mau gosto do universo. O que

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afinal o tempo? Se ninguém me pergunta, eu sei.

Se tento explicar a quem pergunta, já não sei. Ele percebeu o seguinte paradoxo que eu vou pedir para você tentar digerir sem surtar.

O passado ele já não é. Ele sumiu, virou

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fumaça. É só um fantasma na sua cabeça.

O futuro ainda não é. É uma ficção, uma promessa que pode nunca ser cumprida.

Logo, a única coisa que existe é o presente. Certo?

errado. Agostinho com uma precisão

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cirúrgica percebeu que assim, se o tempo tiver qualquer duração, se ele durar 1 minuto, 10 segundos, ele pode ser dividido em antes e depois. Se ele pode ser dividido, então uma parte já é passado e a outra é o futuro.

Então o

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que sobra pro agora? Nada.

O presente ele é um ponto sem dimensão. É como se fosse uma corda bamba feito de um fio de nylon.

E nós somos trapeistas equilibrados nesse fio invisível. suspensos entre o era e o ainda não.

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Pensa um pouquinho na loucura disso tudo. A gente passa a vida inteira sofrendo pelo que aconteceu em 2012 ou sofrendo pela fatura que vence no mês que vem.

A gente sofre pelo que não existe mais e pelo que não existe ainda. E ignoramos o único lugar onde a vida

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acontece, esse ponto cego que chamamos de agora. A gente trata o tempo como se fosse uma linha reta, tipo uma regra escolar, onde organizamos nossos planos.

Amanhã vocêou ser feliz. Semana que vem eu começo a dieta, ano que vem eu viajo.

Mês que vem eu vou dar mais atenção ao YouTube, vou começar a postar mais no

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Instagram. É, eu prometo.

Mas Agostinos dá um tapa na cara e diz que o tempo não é uma linha externa onde você caminha. O tempo é uma distensão da alma.

é a sua mente esticando a realidade como um chiclete. A memória segura o passado, a espera

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projeto futuro e a atenção foca no presente. Você não está no tempo, você é o tempo acontecendo.

Explicar isso é lindo, mas viver isso é um pouco mais complicado do que parece,

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porque em Caral agora exige que você largue a ilusão do controle. E a gente ama controlar as coisas, a gente ama planilhas, agendas, notificações.

A gente ama a ideia de que se organizarmos direitinho vai caber tudo. Mas eu vou te dar um spoiler, não vai, nem adianta

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tentar. Inclusive uma pausa rápida de utilidade pública intelectual.

Se você quiser aprofundar essa paranoia saudável, todos os livros que eu usei para costurar esse roteiro, das confusões de Augustinho, as teorias modernas que vamos ver já, tá tudo linkado aqui na descrição. Comprando

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pelos links, você ajuda o canal a continuar existindo nesse palco temporal e ainda fica mais inteligente que seus colegas de bar. E se você sente que o paradigmas te ajuda a navegar nesse caos, consegue clicar no botão seja membro.

É mais barato que terapia e a gente te abraça virtualmente. Mas

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voltando à nossa tragédia, se o tempo é essa distensão da alma, por que diabos a gente sente que tá numa corrida de Fórmula 1 dirigindo um carrinho de Orliman sem freio? Se Augustinho dizia que o problema era a alma, o que a modernidade nos diz

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séculos depois? Nós pegamos essa angústia natural de existir e transformamos ela num produto.

Nós industrializamos a pressa. Nós olhamos para esse ponto sem dimensão do presente e decidimos que ele precisava ser mais produtivo.

Não basta você tá aqui, você

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tem que tá aqui fazendo três coisas ao mesmo tempo e ouvindo um podcast velocidade 2x. E aí que a gente sai da filosofia clássica e bate de cara no muro da sociologia moderna.

Porque a nossa mente, ela parou de saborear o tempo como se fosse o banquete e passou a tratar o tempo como se fosse um miojo.

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Tudo tem que ficar pronto em 3 minutos, senão a gente perde o interesse. Às vezes eu fico pensando no Santo Agostinho de Boa lá no Mosteiro, escrevendo suas confissões ao som dos passarinhos e dizendo que tava angustiado.

Pois é. Eu queria ver o

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Agostinho vivendo hoje, tendo que lidar com três grupos da família no WhatsApp, dois Discord da firma e a notificação do do Olingo cobrando a lição de alemão que tá atrasada. Ele não ia escrever as confissões, ele ia ter um burnout e abrir uma pousada em São Tomé das Letras.

O nosso problema, ele mudou de

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figura. A gente saiu da angústia metafísica e entrou na angústia logística.

O sociólogo alemão Hatmut Rosa, ele escreveu sobre a aceleração social só para nos dar um tapa na cara com uma luva de pelica. A tese dele expõe o grande paradoxo da modernidade.

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Nunca na história da modernidade tivemos tanta tecnologia criada exclusivamente para economizar tempo. Tenta pensar na sua avó lavando roupa no tanque.

Era um evento de sábado inteiro esfregando a calça jeans até a mão ficar grossa. Hoje você joga a roupa na máquina de lavar,

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aperta o botão e ganha 4 horas de vida. O e-mail ele chega em segundos, não em semanas, como era na época da carta.

O carro é mais rápido do que a charrete. O Tinder agilizou até a rejeição amorosa.

Você nem percebe que tá levando o toco

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mais. Matematicamente a gente devia estar nadando em tempo livre.

A gente devia estitado em redes, lendo o donks shot e aprendendo a fazer pão de fermentação natural. Mas olha para você, olha para todo mundo.

Tá todo mundo exausto, tá

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todo mundo correndo mais do que a vó no tanque. E por quê?

Porque o capitalismo e a cultura da pressa não te deram as tecnologias para você descansar. Elas te deram para você fazer mais coisas.

A economia do tempo não virou óssecio,

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virou meta. Se a máquina lava roupa em uma hora, não significa que você tem uma hora livre.

Significa que você tem uma hora para responder e-mails, ouvir podcast sobre investimento e agendar um dentista enquanto a roupa tá lavando. A tecnologia não libertou o tempo, ela

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densificou o tempo. Nós entupimos cada flecha de silêncio com produtividade.

O resultado é que a vida virou um arquivo compactado, corrompido. Estamos tentando compactar 48 horas no espaço que só cabe em 24 horas.

E aí que surge a aberração

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comportamental que define a nossa era, o áudio em 2x. Presta atenção nisso.

A gente chegou no ponto de doença social, onde a voz humana com suas pausas, respirações e hesitações é considerada lenta demais.

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Se sua mãe te manda o áudio contando como foi o dia dela, você ouve na velocidade dois. E foi mal, mas você não tá sendo eficiente.

Você é só um sociopata funcional. A gente trata a conversa como se fosse um trâmite burocrático.

Termina de falar logo, mãe.

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Eu te amo, mas tenho que ver um TikTok de 15 segundos sobre como ficar rico vendendo curso de como ficar rico. Imagina que você tá morrendo de sede num deserto.

Aí de repente aparece um caminhão de bombeiro. Em vez de te darem um copo d'água, eles abrem a mangueira de incêndio bem na sua cara com pressão

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máxima. Você não consegue beber.

A água te bate, te machuca, te afoga, mas não mata a sua sede. Isso é a internet, isso é o mundo moderno.

Ratm Rosa chama isso de excesso de possibilidades. Temos acesso a todos os filmes, a todas as

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músicas, todos os livros e todos os lugares do mundo na tela do celular. Mas a velocidade da oferta é infinitamente maior do que a nossa capacidade de absorção.

Você passa 2 horas escolhendo filme na Netflix e dorme nos primeiros 10 minutos. A gente consome muito, mas

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experimenta pouco. A gente se molha inteiro, mas continua com sede de sentido.

E para piorar esse cenário caótico, nosso filósofo, coreano favorito, B Shonan, diz que o tempo hoje não é mais um rio que flui, o tempo hoje

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é atomizado. Sabe o que isso significa?

Significa que a vida perdeu a narrativa. Antigamente a vida tinha começo, meio e fim.

Havia tempo de plantar e tempo de colher. Havia transição, havia o tédio, a espera.

Hoje vivemos uma sucessão de

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instantes histéricos e desconexos. É um agora atrás do outro, sem ligação entre si.

É o feed finito do Instagram. É um vídeo de gatinho fofo, seguido de uma notícia de guerra, seguido de alguém vendendo uma bet com versículo bíblico, seguido de uma receita de bolo.

Não

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existe história, não existe mais arco dramático. São apenas contas de um colar que arrebentou espalhando pérolas de agora pelo chão.

A nossa mente virou um miojo existencial. A gente não aguenta mais esperar 3 minutos.

Se o vídeo trava, a gente xinga o provedor de internet. Se o microondas demora, a

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gente fica olhando os segundos regressivos como se tivesse desarmando uma bomba em Hollywood. A gente perdeu a capacidade da demora.

E quem não sabe demorar, não sabe sentir, porque o sentimento precisa de tempo para curtir, precisa de tempo para marinar. A

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tristeza precisa de tempo para virar luto e depois saudade. A alegria precisa de tempo para virar memória.

Mas nós atropelamos tudo. Estamos transformando a nossa biografia numa série de stories.

que some depois de 24 horas. A gente

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acha que tá ganhando tempo pulando os anúncios da vida, cortando os caminhos, acelerando os áudios, mas a verdade incômoda que você tenta ignorar é que nessa velocidade toda nada fixa, nada adere alma. A gente vira um teflon, a gente vira uma panela antiaderente onde

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nada gruda, tudo desliza e desliza para fora da panela. Os dias passam e a gente não sente o gosto deles.

Mas calma, respira, porque mesmo nessa maratona alucinada, mesmo com um cérebro frito de dopamina barata,

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existe uma sabotagem interna que a gente não controla. Existe algo dentro de você que se recusa a seguir o relógio da máquina.

Às vezes, no meio da correria, um cheiro de café, uma música velha no rádio do Uber ou a luz do sol batendo na poeira da sala faz tudo parar. De

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repente, a velocidade 2x não funciona mais, o tempo linear quebra. A gente descobre que por baixo dessa pressa toda existe um outro tipo de tempo esperando para dar o bote.

Um tempo que não corre, mas que se estica. Agora para um

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pouquinho, respira. Vamos lá, respira por 2 segundos.

Tenta sentir o peso do A entrando no seu pulmão. Percebeu que o ritmo mudou?

Aquele relógio histérico que a gente estava xingando agora a pouco, ele

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continua lá fazendo seu tictaco, indiferente, frio, como se fosse um atendente de repartição pública numa sexta-feira às 15:59. Mas aqui dentro, na sala de estar da sua cabeça, o tempo parou de correr e ele

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começou a flutuar. E aqui que a gente precisa invocar o espírito de um filósofo francês que se fosse vivo, provavelmente olharia pro seu smartwatch e daria uma risada e desprezo.

Henry Bergson. Enquanto a ciência e o capitalismo

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tentavam fatiar o tempo segundos precisos para aumentar a produtividade nas fábricas, Bson, ele levantou a mão e disse: "Com licença, Miror, mas isso aí não é o tempo, isso é geometria, isso é espaço." Henry Bon ensinou a diferença

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vital entre o tempo do relógio e a duração. O tempo do relógio é quantitativo.

Ele diz que o minuto é igual a qualquer outro minuto. 60 segundos.

São sempre 60 segundos, seja na Suíça ou em Carapicuíba. É uma

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democracia matemática, mas a sua alma, ela tem dificuldade em aceitar isso. Ela sabe que isso é uma mentira deslavada, é uma fake news ontológica, porque existe o tempo vivido, que é a duração.

E na duração o tempo ele é elástico. É como

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se ele fosse feito de borracha, de chiclete ou de memória derretida. Pense na relatividade prática do cotidiano, aquela que não precisa de Asten, mas de uma sala de espera no consultório médico.

15 minutos esperando o dentista com aquele barulhinho de

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broca no fundo dura uma encarnação inteira. Você envelhece, seus sonhos morrem, impérios caem e se levantam e o ponteiro do relógio não se mexe.

Agora pense em 15 minutos conversando com alguém que você ama ou então rindo de doer a barriga, deixar a cara com câra

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com seus amigos. Esses mesmos 15 minutos evaporam.

Eles somem num estalo de dedos, deixando apenas o rastro do Já acabou. O relógio diz que foi a mesma quantidade de tempo, mas a sua experiência diz que foram duas vidas diferentes.

O tempo, então, meus

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caros, é um sofista. Ele mente pra gente o tempo todo.

Ele se estica no tédio, na dor e se comprime na alegria. É uma sacanagem cósmica isso.

Os momentos que queremos que durem para sempre são os que passam mais ligeiros.

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E os momentos que queremos que acabe logo, ele se arrasta com a lerdeza de uma visita chata. Quem não sabe a hora de ir embora e não percebe que você já tá de pijama.

Mas a magia real acontece quando o tempo não apenas estica, mas ele dobra sobre si mesmo. E para

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explicar isso, precisamos falar de literatura e de comida. Vamos falar de Marcel Prust e a sua famosa Madeline.

Para quem nunca leu os sete volumes de Em Busca do tempo perdido, essa cena ela é clássica. O Nardô, ele molha um

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bolinho, a sua madeline no chá. No instante que o sabor toca a língua dele, o teto da realidade explode.

Ele não apenas lembra do passado, ele é transportado para o passado. A casa da tia em Combrei, o cheiro das flores, a

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textura dos guardanapos, a luz da manhã de domingo, tudo volta com uma violência sensorial absurda. O passado não tava morto.

O passado tava bernando dentro de um bolinho. Você tem a sua madeline.

Pode não ser um bolinho francês chique.

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Talvez seja o cheiro da terra molhada que te joga direto para as férias do sítio em 1998. Talvez seja aquela música brega que quando toca no rádio faz você sentir o cheiro do perfume da sua ex-namorada e o aperto no peito do primeiro término como se fosse hoje.

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Talvez seja o gosto de tubaína que te faz sentir ter 7 anos de idade novo correndo com um joelho ralado e sem conta para pagar. Isso prova que o tempo não é uma linha reta que fica para trás.

O tempo é circular. O passado não foi embora.

Ele tá encruado na gente, tá

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tuado nas nossas sinapses, escondido nos objetos. Bergson dizia que nós somos como uma bola de neve rolando montanha baixo.

A cada volta essa bola de neve cresce. Ela não perde a neve que ficou para trás, ela acumula a neve.

O núcleo

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da bola de neve, a sua infância ainda tá lá dentro de você, sustentando a camada da adolescência que sustenta a camada da vida adulta. Nós não perdemos tempo.

Nós somos o tempo acumulado. Essa visão, ela é bem legal, mas ela também dá um pouquinho de angústia,

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porque significa que nada se perde. Cada vergonha, cada glória, cada tdio, cada eu te amo não dito, cada vá pro inferno gritado.

Tudo isso tá gravado no vinil da sua existência. Você não é um tuboco por onde o tempo passa e vai embora.

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Você é um depósito vivo. Você caminha carregando todos os seus eus passados nas costas, como se fosse uma mochila de caminhada que nunca fica mais leve, apenas mais organizada.

Se você fizer terapia, claro, o tempo quantitativo do relógio tenta nos convencer de que somos

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finitos, de que os dias são páginas arrancadas de um calendário que vai ficar vazio. Mas a memória é a nossa pequena rebelião contra a morte.

Ela é a prova de que dentro da nossa cabeça as leis da física não mandam em nada. Dentro da gente, podemos jantar com quem

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já partiu, reescrever os erros e viver os mesmos domingos ensolarado da infância mil vezes. Mas viver no passado é perigoso.

É tipo dirigir um carro olhando só pro retrovisor. Pode ser poético, mas é bem possível que você vai bater com o carro no pote do presente.

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A nostalgia ela é uma droga potente vendida nas esquinas da mente. E se a gente abusa, a gente pode ficar chapado de ontem e esquecer de acordar hoje.

Então, se o tempo do mundo corre demais e nos adoece e o tempo da memória nos

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prende no Museu de Ser em Emocional, onde a gente se esconde? Existe algum lugar, algum estado de espírito onde o relógio não apita e o passado não assombra, onde o tempo simplesmente para?

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Existe. E o mais curioso é que você provavelmente já esteve lá, mas estava ocupado demais para perceber.

Um psicólogo húngaro com sobrenome que parece que é a obra de um gatinho que ficou andando em cima de um teclado, o Mihaí Tixent Mirí, chamou esse estado de

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flow, o famoso estado de fluxo. Você conhece esse lugar?

É aquele momento que você senta para editar um vídeo ou então escrever alguma coisa, escrever um código, jogar videogame, ler um livro, tricotar, fazer crochê e a realidade simplesmente derrete. A fome

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some, o sono desaparece, a vontade ao banheiro é negociada biologicamente com a sua bexiga. Você olha pro relógio e pensa que passaram 20 minutos, mas quando olha pela janela, já amanheceu e os passarinhos estão ali julgando suas escolhas de vida.

No flow, o tempo

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cronológico é assassinado. 5 horas viram 5 minutos.

Por quê? Porque segundo nosso amigo do sobrenome muito difícil, que eu não vou repetir, a consciência se funde completamente com ação.

Não sopra espaço

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mental para monitorar o eu ou ele tira folga. Você não tá jogando, você é o jogo.

Você não tá ali tocando violão. Você é a música.

É a prova empírica de que o tempo não é uma constante física, mas uma construção da

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atenção. Quando a atenção é total, o tempo é nulo.

É o nosso pequeno nirvana laico, acessível a qualquer um com hobby obsessivo. Mas esse não é o único esconderijo.

Se o flow é onde o tempo para por excesso de

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foco, existe um porão escuro na sua mente, onde o tempo nunca nem começou a existir. Quem nos leva até lá é o bom e velho sigmo de Freud com seu charuto e sua mania de culpar a mãe por tudo na sua vida.

Freud soltou uma bomba que até hoje a gente finge que entendeu, mas não

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digeriu muito bem. No inconsciente não existe tempo.

O inconsciente ele é atemporal. E o que significa na prática, tirando a parte acadêmica, significa que lá no fundo do seu HD mental, tudo tá

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acontecendo agora. Sabe aquele trauma que você sofreu aos 5 anos de idade quando você derrubou seu sorvete na areia da praia?

Pro seu inconsciente, isso não foi lá em 1986, isso tá acontecendo agora. A dor ainda tá ali fresquinha para ser sentida.

Sabe

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aquele desejo infantil de ser o centro das atenções? Ele tá vivo, pulsante agora.

Mesmo que você seja um diretor de multinacional com terno em gravata. Nós somos cebolas temporais.

Por fora a casca é de 2025. cínica, cansada, cheia

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de contas para pagar e dores na lombar. Mas se você descascar, você vai encontrar um adolescente rebelde de 1998.

E se for mais fundo, vai encontrar uma criança carente em 1985. E é por isso que a gente se olha no espelho e leva um susto.

A gente fica se

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perguntando, ó, quem é esse tiozão aí de olheira me encarando? Por dentro eu ainda tenho 22 anos.

Por dentro eu ainda acho que sou imortal, que eu posso comer pizza, quatro queijos e feijoada às 2as da manhã sem ter azia. O tempo psíquico se recusa a envelhecer.

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Essa é a grande ironia da condição humana. O corpo é um relógio biológico implacável, tictateando rumo à decreptitude, soltando peças, rangendo dobradiças.

Mas a psiquema interna Peterpan, ela ignora na cara de pau a passagem dos anos. Ela quer brincar, ela

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quer colo, ela quer que o mundo pare para ela descer. E se você refletir um pouco sobre isso, vai perceber que isso explica muita coisa.

explica porque tem marmjo de 40 anos de idade agindo igual um menino mimado no trânsito. Explico porque às vezes diante de uma autoridade

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a gente se sente pequeno e desamparado como se fosse o primeiro dia de aula. Não é imaturidade, ou melhor, não é só imaturidade, é a coexistência de todos esses tempos dentro de nós.

Nós somos um apartamento lotado, onde a criança, o

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jovem ou adulto moram juntos e a criança insiste em ficar tocando a campanha dos vizinhos e sair correndo. O flow nos dá férias do tempo e o inconsciente nega a existência do tempo.

Esses são os nossos refúgios e é muito bom se esconder neles. é tentador viver dentro de um

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videogame ou dentro de uma fantasia infantil onde somos heróis imortais. Lá a morte não existe, o prazo do relatório não existe, mas esses esconderijos ele tem um defeito grave.

Eles são ótimos para visitar, mas são péssimos para

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morar. Porque enquanto você tá lá flutuando na atemporalidade, o mundo aqui fora ele continua girando e o mundo aqui fora ele cobra juros.

A gente adora usar esses refúgios como desculpa para não enfrentar a realidade, dizendo que não tá procrastinando de novo, que você

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só tá seguindo seu flow ou então que você não é responsável, é que a sua criança interior se recusa a crescer. Mas você sabe que isso é conversa fiada.

A gente usa a temporalidade da mente para fugir da responsabilidade do calendário. A gente se esconde no agora eterno do prazer para não ter que olhar

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pro futuro finito. Então vamos lá.

A gente passou os últimos minutos reclamando que o mundo é rápido demais, que o relógio é um tirano e que a sociedade nos oprime. E tudo isso é verdade.

Mas existe uma outra verdade. A culpa também é nossa.

O filósofo

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históico romano Lúcio Anneu Sênica, ele não era um coach motivacional de Instagram que te manda vibrar alto. Sênica era o tutor do imperador Nero, ou seja, o cara tinha o emprego mais estressante da antiguidade.

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Ele escreveu um tratado chamado Sobre a brevidade da vida, que basicamente é uma carta de demissão da nossa vitimização. Sabe essas coisas que a gente repete todo dia?

Ah, a vida é curta demais, não dá tempo para fazer nada. Então, paraa Cênica, a vida não é curta, somos nós

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que a desperdiçamos. E o argumento dele é igual uma voadora no peito.

A natureza nos deu tempo suficiente para realizar as maiores conquistas se a gente soubesse vestir esse tempo. O problema é que a gente sangra tempo.

A

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gente é tipo um hemofílico temporal. Você diz que não tem tempo para ler livro, não tem tempo para aprender um idioma, não tem tempo para brincar com seu filho.

Mas se eu pegar o celular agora e abrir o relatório de tempo de uso, o que que eu vou encontrar lá? 2

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horas de Instagram, 40 minutos discutindo política, constrando no Twitter que tem uma foto de perfil de um cachorro, 3 horas vendo vídeos de reação de guerir do K-pop ou então um tutorial sobre como construir uma piscina de barro numa selva indiana. A gente joga o nosso tempo no lixo com a mesma

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generosidade de um milionário bêbado. Cênica dizia que somos mesquinhos com o nosso dinheiro, porque afinal de contas ninguém sai por aí distribuindo o dinheiro adoidado.

Mas somos perdulares com a única coisa que nunca mais vamos recuperar, a nossa

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vida. A gente deixa qualquer um invadir nosso tempo.

Qualquer notificação, qualquer fofoca, qualquer bobagem sequestra a nossa atenção e a gente entrega de bandeja. E aí sur hoje o fenômeno da vida de rascunho.

A gente vive a vida como se

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fosse um ensaio geral, como se a estreia da peça da vida fosse acontecer só daqui a 20 anos. É a síndrome do quando eu me aposentar, vou viajar.

Quando eu tiver dinheiro, eu vou ser feliz. Quando chegar o fim de semana eu descanso.

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A gente vai empurrando a vida com a barriga para um futuro hipotético. A gente vive na sala de espera da existência lendo uma revista velha.

e aguardando o médico chamar o nosso nome paraa vida começar de verdade. Cênica tem uma frase que deveria estar tatuada na testa de todo mundo.

Enquanto

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aguardamos a vida, a vida passa. Repara bem na brutalidade disso.

A procrastinação, ela não é preguiça. A preguiça é não querer fazer nada.

Procrastinação é o medo. É a arrogância de achar que o futuro nos pertence.

A

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gente age como se fosse mortal. Você faz planos de 10, 20, 30 anos como se tivesse assinado um contrato de garantia com a morte.

Ah, ano que vem eu resolvo isso, tá? E quem disse que vai ter ano que vem?

Você recebeu algum memorando de

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Deus? O RH do universo te mandou um e-mail confirmando sua renovação de contrato?

Não. A gente vive no automatismo.

A gente acorda, trabalha, paga conta, dorme e repete. No dia seguinte a gente trata o tempo como algo profano, algo banal.

Cênica nos chama de

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loucos. Ele dizia: "Vocês guardam o melhor vinho pro final da festa, quando todo mundo já tá bêbado e nem sente o gosto." A gente guarda a nossa melhor energia, a nossa melhor versão paraa velice, para quando e se tivermos tempo.

Queremos

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viver de verdade quando já não tivermos mais dentes para morder a vida. E isso não é planejamento, isso é estupidez.

A verdade incômoda, aquela que cutuca a nossa consciência, é que não nos falta tempo, nos falta prioridade, nos falta

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coragem, porque tá ocupado é o melhor anestésico que existe. Tá na correria é chique, é status e acima de tudo é um escudo.

Porque se eu tô correndo o tempo todo, eu não preciso parar para pensar se estou correndo na direção certa. A

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ocupação constante nos protege de ter que conversar com a nossa própria consciência. A gente enche a agenda para esvaziar a angústia.

Cênica nos convida a parar de viver o tempo dos outros, as obrigações sociais, as aparências, os vícios e

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começar a viver o tempo próprio. Não é sobre largar emprego e vender mi saga na praia, a menos que você realmente queira isso.

É sobre densidade, é sobre estar inteiro no que você tá fazendo. Se você tá lavando a louça, então esteja lavando a louça e não planejando a reunião de

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amanhã. Se você tá com amigo, larga a porcaria do celular.

Cada vez que você divide a sua atenção, você tá diluindo a sua vida, você tá transformando vinho em água suja. A verdade é que você está morrendo agora.

E não, não é drama, é

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biologia. A cada segundo que você passa nesse vídeo, por exemplo, você tá um segundo mais próximo do fim que você tava lá no começo.

A areia da ampuleta ela não sobe de volta. E a tragédia não é morrer.

A tragédia é chegar no fim, olhar para trás e perceber que você não

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viveu. Você apenas durou um certo tempo.

Você foi um figurante na sua própria biografia. Mas por que a gente faz isso?

Porque é tão difícil viver agora mesmo sabendo de tudo isso? Porque insistimos nessa

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ilusão da imortalidade adiante tudo que importa. Talvez porque exista algo ainda mais assustador do que desperdiçar o tempo.

Talvez a nossa procrastinação seja apenas um sintoma de um medo muito mais profundo. O filósofo alemão Martin Hanig

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escreveu um livro chamado Ser e Tempo. É um livro difícil, meio complicado, com uma escrita que parece um arame farpado, mas no meio daquela complexidade toda, ele escondeu a chave que liberta a gente dessa prisão do relógio.

Lembra que a gente falou o tempo todo sobre perder tempo, ganhar tempo, gerenciar o tempo?

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Então, para Heiner, nós não somos seres que estão dentro do tempo. O tempo não é um cenário, um palco ou então um contêiner onde a gente entra quando nasce e sai quando morre.

O tempo não é algo externo. O tempo é a nossa carne.

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Nós somos feitos da mesma substância que compõe os dias. Heidos seres temporais.

O tempo é a estrutura do nosso existir. Eu sei, isso pode parecer meio místico, mas vamos trazer isso pro chão, pro

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asfalto quente da realidade. O que quer dizer é que nós somos seres projetados paraa morte, a afinitude, o fato irrevogável de que a nossa bateria vai acabar.

Não é um defeito de fabricação,

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é o componente principal, é o que faz o aplicativo da vida funcionar. Vamos fazer um exercício de imaginação que vai explodir a sua cabeça.

Imagina que você é imortal, tipo um vampiro de um filme ruim, mas sem a parte de brilhar no sol, por favor. Você tem todo o tempo do

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mundo, você tem trilhões de anos. Agora me responde, qual é o valor de uma escolha se você tem tempo infinito?

Se você pode ler todos os livros do mundo a qualquer hora, o que que você vai ler esse livro justamente agora? Se você pode viajar para todos os lugares do

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mundo há qualquer tempo, por que ir pra praia nesse verão? Se você tem eternidade toda para pedir desculpas, para dizer eu te amo, para aprender a tocar piano, por que fazer qualquer uma dessas coisas hoje?

Na imortalidade a urgência desaparece. E quando a urgência

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morre, o sentido morre junto. Numa vida infinita, tudo seria sem graça, tudo seria morno, nada teria peso, porque nada teria custo.

A escolha A não ia anular a escolha B, porque você poderia fazer a A agora e fazer a escolha B

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daqui a 1000 anos. A vida se tornaria uma massa de mandela cinza, sem forma, sem urgência, sem gosto.

Seria um tédio cósmico insuportável. Aí volta para Heiger e te diz que a sua vida tem sentido justamente porque ela acaba.

É

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escassez que gera o valor. O ouro só é caro porque ele é raro.

A vida é preciosa porque ela é finita. Cada vez que você escolhe assistir esse vídeo, você tá pagando com uma moeda que nunca mais vai voltar.

Você tá gastando vida.

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E isso é lindo, isso é aterrorizante e isso também é maravilhoso. Quando você escolhe se casar com alguém, você tá matando todas outras possibilidades de vida que você teria com outras pessoas.

Mesmo que você separe e case com outra, nem você, nem outra pessoa são mais os

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mesmos. Quando você escolhe ser médico, você mata o músico, o engenheiro, o degustador de cerveja em festa que existia em você.

Toda escolha é um pequeno luto. Toda decisão carrega o peso da exclusão.

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E é esse peso que dá densidade à existência. Se não morrêssemos, seríamos leves demais.

Varíamos como se fosse balões de gás sem direção. É a gravidade da morte que nos mantém no chão, que nos obriga a

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traçar uma rota, que nos obriga a viver. Heidgen chama isso de viver pra morte.

Não é viver com medo de morrer, pelo contrário, é viver com a consciência lúcida de que o prazo existe. Quando você ignora finitude, o tempo fica leve,

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frouxo, os dias se repetem num loop de miojo. As decisões são adiadas paraa aposentadoria.

A vida vira uma sala de espera cinza. Você vira um ninguém vivendo a vida de todo mundo, seguindo a manada.

Mas quando você encara finitores

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de frente, quando você percebe no estômago que você pode não estar aqui na semana que vem, o tempo ele ganha uma textura. O café tem mais gosto, o abraço na sua mãe deixa de ser protocolo e vira uma despedida e um reencontro ao mesmo tempo.

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Você para de tolerar empregos medíocres, amores tóxicos e conversas fiadas. Você para de matar o tempo porque percebe que o tempo é você.

Isso nos leva aquele incômodo que sentimos no final do ano. Sabe aquela melancolia de domingo à noite, aquele aperto no peito no dia do

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seu aniversário? A gente costuma achar que é medo de envelhecer, que é medo das rugas, do corpo falhando, mas Heidegger diria que não.

O que você sente não é medo da velice, é a vertigem da liberdade. Talvez o desconforto que sentimos diante do fim de um ciclo não seja um medo do

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tempo que passou, mas um pressentimento silencioso do tempo que somos. O ano não termina.

O calendário é só um papel apado. O que termina é sempre uma possibilidade de nós mesmos.

Essa angústia é o som da sua própria

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alma, percebendo que estamos queimando combustível. Não estamos perdendo tempo, estamos nos realizando nele.

A vela precisa queimar para iluminar. Se ela quiser economizar a cera, ela fica inteira, mas vive no escuro.

Então você

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quer ser uma vela intacta na gaveta ou quer ser uma chama que dança, ilumina, queima e um dia acaba. Então, Heid nos convida a sair da existência inautêntica, a existência guiada pela fofoca, pela novidade, pela distração, e assumir a existência autêntica, assumir

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que somos os autores desse livro curto. O final do livro já tá escrito e na última página o protagonista morre.

O spoiler é universal. A questão não é o final.

A questão é o que você vai escrever nas páginas restantes.

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Vai ser um drama chato, uma comédia pastelão ou vai ser um livro de aventura épica. O tempo, então, ele deixa de ser o inimigo que escorre pelos dedos e se revela como o campo aberto onde a gente planta quem a gente é.

Aceitar a finitude não é desistir, é acordar, é

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sair do modo soneca existencial. E agora que a gente acordou, agora que a gente olhou pro relógio e viu que ele não é um monstro, que ele é na verdade uma bússola.

O que que é que a gente faz? Como a gente vive depois de saber que tudo isso vai acabar?

Para fechar

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essa nossa terapia de grupo digital, eu preciso te apresentar um conceito que é, ao mesmo tempo, a ideia mais aterrorizante e a mais libertadora concebida por um cérebro humano. Quem nos traz esse presente de grego é Frederic, o homem que filosofava com

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martelo na mão. Ele nos propõe um teste, um desafio mental que separa as crianças dos adultos existenciais.

Ele chama de o eterno retorno. Imagina que essa noite um demônio ele se

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esgueira até o seu ouvido e naquele momento de insônio que você tá questionando a sua escolha de vida, ele sussurra o seguinte: vida como você a vive agora e como você viveu, você terá que viver ela mais uma vez e inúmeras vezes mais e não haverá

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nela nada de novo. Cada dor e cada prazer, cada pensamento e cada suspiro, cada tédio, cada conta paga, cada coração partido e cada momento de glória, tudo vai voltar para você.

E tudo na mesma ordem, essa mesma aranha,

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esse mesmo lugar, esse mesmo vídeo do YouTube e eu mesmo, esse mesmo demônio sussurrando no seu ouvido. É como se o universo fosse um disco riscado tocando a mesma música para sempre.

A pergunta de Niet é: se você soubesse disso agora,

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você se jogaria no chão revoltado e a maldição desse demônio? Ou você respiraria fundo, olharia nos olhos dele e diria: "Você é um Deus e nunca ouvi nada tão divino".

Pensa no peso disso. Ter que viver de novo aquele dia em que

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você teve intoxicação alimentar no primeiro encontro com aquela pessoa especial. Ter que viver de novo aquela reunião de 4 horas que você não precisava estar lá.

tem que aguentar de novo a quinta série. Bate um certo desespero, né?

Mas é aí

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que tá o pulo do gato. Niet não quer que você sofra, ele quer que você ame.

Ele propõe então o amor fate, o amor ao destino, o amor aos fatos. Não é resignação.

Resignação é coisa de quem perdeu e aceita derrota de cabeça baixa.

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É aquela história do ah, fazer o qu, né? A vida é assim mesmo.

Não. Amorfate é um sim gritado com toda a força dos seus pulmões.

É olhar pra vida com toda a sujeira, com toda a dor, todo caos e dizer: "Foi assim?" Então que seja assim

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e que se repita. Você não pode escolher apenas os momentos bons.

A alegria é feita a partir da superação da tristeza. O alívio é feito a partir do fim da dor.

A montanha só existe porque existe o vale. Se você edita sua vida para tirar os

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momentos ruins, o filme desmorona. Você é o pacote incompleto.

Quando você aceita o Até no retorno, o tempo deixa de ser uma linha reta ruma à morte e vira uma viagem mais agradável. O peso da escolha se torna absoluto.

E aqui que se esconde esse detalhe crucial, o peso

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da escolha. O amorfate é dizer sim paraa sua vida.

Mas se você não consegue dizer sim, se a sua vida é feita mais de do que de sins, então você tá vivendo uma vida baseada nas escolha dos outros. Diante de uma

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escolha, lembre-se sempre disso. Não existe escolha certa ou escolha errada.

Existem escolhas boas e escolhas ruins. A escolha boa te leva a bons momentos.

As escolhas ruins te levam a desafios. O

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errado seria não escolher, porque aí você vai ter que viver uma vida baseada nas escolhas de outras pessoas. Então, escolha sempre as suas decisões, porque se você vai ter que viver esse momento infinitas vezes, faça esse momento, vale a pena.

Não viva de qualquer jeito. Não

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viva empurrando com a barriga. Dê a cada instante uma dignidade eterna.

Trate-te a sua segunda-feira chuvosa com a mesma reverência que você trata o seu sábado de sol, porque você nunca sabe quando vai ser o seu último. E isso nos leva de volta pro começo, pro relógio, pra

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ansiedade, pro fim dos ciclos. Pare de tratar o tempo como se fosse algo externo que te ataca.

Pare de olhar pro calendário como se ele fosse um juiz contando os segundos para te nocoutear. O tempo ele não passa por você.

O tempo é você. O ano ele não vira.

O universo

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ele não sabe o que que é janeiro, dezembro ou agosto. Quem vira é você.

Quem encerra ciclos é você. Quem dá significado à rotação da Terra ao redor do Sol é a sua consciência.

A grande mentira que nos contaram é que

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precisamos de mais tempo. Ah, se eu tivesse mais tempo.

Isso é besteira. Você não precisa de mais tempo, você precisa de mais presença no tempo.

Uma vida longa e distraída é muito menor do que uma vida curta e atenta. Viver 100

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anos no piloto automático é apenas durar uma existência. Viver um dia em estado de amor fate, aceitando e amando cada segundo é viver a eternidade enquanto estiver por aqui.

Então, não deseje que o tempo pare. Não deseje que o tempo

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corra. Deseja apenas teragem de estar inteiro onde seus pés estão pisando agora.

Tira um momento do seu dia para desligar todas as telas e para olhar em volta, olhar a parede, olhar pro gato, olhar pra planta, olhar pra louça suja e pela primeira vez no dia tentar apenas

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estar onde você tá, sem filtro, sem pressa, sem o peso do passado, sem ansiedade do futuro. Apenas o agora, apenas você, apenas o tempo sendo o tempo através de você.

Mas eu sou um cara falando com uma câmera. A gente vai

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muito mais longe através do diálogo. Por isso eu quero saber de você.

Essa reflexão fez sentido ou apenas desperdicei 30 minutos do seu eterno retorno? Escreve aqui nos comentários a que conclusão você chegou.

Vamos transformar essa sessão de comentários num oasis de

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pensamento no meio do deserto da internet. E se você quiser selar o nosso pacto de hoje, comenta a frase: "Eu não tenho tempo, eu sou o tempo".

Eu quero ver quem chegou até o fim e tá pronto para assumir essa responsabilidade. Se esse conteúdo te ajudou a organizar o

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seu caos mental, deixa seu like. Isso ajuda o algoritmo a entender que essa filosofia de boteco é relevante.

E se inscreve no canal Peradigmas e ative o sininho, não para ficar ansioso com notificação, mas para saber quando a gente vai se encontrar de novo. Compartilha esse vídeo com aquele seu

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amigo que vive correndo e diz que nunca tem tempo para nada. E se você quiser apoiar esse projeto e garantir que eu continue criando esses roteiros para fritar o cérebro, consegue se tornar membro do canal.

Custa menos que um café e ajuda a manter essas luzes acesas. Ah, e antes que eu me esqueça, se você ficou

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curioso com o Agostinho, Heiniger, Niets, a lista completa dos livros que eu usei para construir esse roteiro tá aqui na descrição do vídeo. Comprando pelos links, você fica mais culto e ainda garante um cafezinho para esse professor aqui que vos fala.

Dá uma

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olhada nos outros vídeos do canal, tem muita coisa bacana para maratonar, mas eu também posso estar completamente errado. Então, pense bem sobre tudo isso, fique bem e beba água.

Muito obrigado por chegar até aqui. Agora você pode continuar essa viagem filosófica através de um dos vídeos que estão

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aparecendo aí na tela. Se inscreve no canal para garantir sua carteirinha de sócio nesse hospício.

Grato pela sua paciência, pela sua companhia. Bom dia, boa tarde, boa noite e boa sorte.

Até a próxima. Yeah.