Você é Refém do Próprio Ego - Filosofia & Psicologia

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Por que você sente saudade do que te destrói? Já parou para pensar nessa incoerência absurda?

Você diz que quer ser livre, que quer paz, que quer silêncio, mas se eu te entregasse agora a chave da sua cela nesse exato segundo, você provavelmente engoli a chave só para não ter que abrir a porta. Existe

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uma contradição gritante no centro da sua existência. Você é ao mesmo tempo a vítima chorosa no canto da sala e o carrasco sádico segurando o chicote.

E o mais assustador não é a tortura. O mais assustador é que você não consegue

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distinguir onde termina você e onde começa o seu torturador. Você protege esse sequestrador como se ele fosse a sua mãe, o seu deus e a sua conta bancária, tudo junto e misturado.

Esse é o cativeiro mais luxuoso e claustrofóbico do universo, a sua

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própria cabeça. Eu me chamo Felipe e esse é o Paradigmas.

Hoje nós vamos investigar o crime perfeito. Mas antes de entrarmos na cena do crime, um aviso bem rápido para quem quer sobreviver esse vídeo.

Se você senti vontade de se aprofundar nessa terapia de choque, todos os livros que usamos como base

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para esse roteiro de Freud a Dostoevsk, passando até pela neurociência, tá tudo listado aqui na descrição. Comprar pelos links, você ajuda a manter a nossa sanidade e o canal funcionando.

E se você quiser fazer parte da resistência contra a superfilidade coletiva,

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considere virar um membro do canal. É mais barato do que remédio para ansiedade e diz as mais línguas que funciona muito melhor, segundo a pesquisa que eu mesmo inventei.

Agora respira fundo e vamos falar sobre manipulação. [música]

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A gente adora culpar os vilães externos, né? É uma delícia.

É muito prazeroso culpar o sistema, a corrupção sistêmica na política, a mídia manipuladora, o algoritmo do TikTok que fritou seus neurônios, o capitalismo tardio que te obriga a parcelar a felicidade em 12

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vezes sem juros. Eles são esculpados?

Sim, lógico. Mas se a gente for bem honestos, vamos perceber que perto do verdadeiro inimigo eles são apenas estagiários.

Eles são amadores. O maior manipulador da sua vida, o verdadeiro fascista que

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censura seus pensamentos e dita suas emoções, ele não mora em Brasília, não mora em Wall Street e muito menos no Vale do Silício. Ele mora num apartamento de ossos, seja nela, úmido e escuro, localizado exatamente entre as

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suas orelhas. Existe uma voz na sua cabeça narrando sua vida em tempo real.

E você ouve essa voz agora enquanto eu tô falando contigo. E o maior erro da sua biografia, a tragédia grega da sua existência, é que você acredita com uma fé cega e infantil que essa voz é você.

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Sinto muito, mas não, ela não é você. Imagina que você nasceu livre, uma consciência pura, um oceano de possibilidades.

Mas em algum momento entre a infância e o primeiro trauma na escola, o painel de controle da sua nave foi invadido. Um inquilino indesejado

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entrou. trocou a fechadura, sentou na cadeira do capitão e começou a gritar ordens.

E você, pequeno, assustado, começou a obedecer. Com o tempo, você esqueceu que ele era o invasor.

Você começou a achar que a voz dele era a sua

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voz. Esse ditador interno decide que você vai ter uma crise de ansiedade no domingo à noite.

Ele decide que aquela piada que fizeram sobre o seu cabelo há 10 anos ainda é motivo para você perder o sono. Ele decide que você é feio demais, pobre demais ou então impostor

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demais para ser amado. Ele projeta filmes de terror em 4K na sua mente, onde você sempre termina sozinho e humilhado e te obriga a assistir em loop.

E o que você faz? Você paga o aluguel dele.

Você defende as opiniões dele em mesa de bar. Você briga na internet para proteger a honra desse

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tirano. Nós chamamos esse sequestrador de identidade.

Chamamos de eu. A psicologia chama de ego.

Mas para sermos precisos, deveríamos chamá-lo de o narrador não confiável. Pensa num nível

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de absurdo. Você tá num relacionamento abusivo com a sua própria mente.

É uma síndrome de estocommo biológica. O sequestrador ele te bate, te enche de culpa, te enche de medo, de vergonha e depois diz: "Ah, eu só fiz isso para te proteger, porque o mundo lá fora é muito

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perigoso". E você ali tremendo no canto do seu córtex cerebral agradece dizendo assim: "Ah, muito obrigado, ego.

O que seria de mim sem você?" A verdade é que nós não somos livres. A liberdade que acreditamos ter é apenas o tamanho da colheira que o ego nos permite usar

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naquele dia. Se você acha que eu tô exagerando, tenta ficar 5 minutos em silêncio absoluto sem pensar nada.

Vai, tenta. O ditador, ele vai entrar em pânico.

Ele começa a gritar sobre a fatura, sobre a ex-namorada, sobre a política, sobre qualquer coisa, menos o

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silêncio. Porque no silêncio você pode perceber que ele é uma fraude.

E a única coisa que o ego teme mais do que a morte é ser descoberto com a farça que ele é. Mas como esse mecanismo funciona?

Como esse pequeno gestor burocrático tomou o

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poder absoluto da da sua psiquê e convenceu de que ele é o dono da casa. Para entender isso, precisamos disse secar a arquitetura dessa prisão.

Precisamos entender que o ego não é um monstro debaixo da cama. Ele é um funcionário público, corrupto e aterrorizado, tentando desesperadamente

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manter a papelada em dia para que você não veja o caos, que é a realidade. Então, se nós pintamos o ego como um ditador, agora precisamos ser intelectualmente honestos.

e admitir que a situação é ainda muito mais patética. O ego não é um general de cinco estrelas

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fumando um charuto. Na verdade, se olharmos bem de perto a mecânica da coisa, o ego se parece muito mais com aquele gerente de RH estressado, ou pior ainda, um relações públicas corrupto, que trabalha numa empresa à beira da falência.

Ele só frio, ele mente num relatório anual e a única função dele é

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garantir que os acionistas, no caso a sua consciência, não percebam que o prédio tá pegando fogo. Segund Freud, o pai da psicanálise e o homem que estragou a nossa relação com nossos pais para sempre, ele soltou uma bomba no início do século passado.

Ele disse: "O

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eu não é senhor em sua própria casa". Essa frase, ela tinha que ser tatuada na teste de todo influenciador digital picareta que fica aí vendendo o curso de mindsets do sucesso.

O que Freud quis dizer é que você, essa coisinha que você chama de eu, é apenas um sanduíche

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prensado entre duas forças titânicas e completamente malucas. De um lado, no porão escuro da sua mente, vive o ID ou o Isso.

O ID é um animal, ele é um chzé viciado em dopamina, segurando uma garrafa de whisky e um isqueiro. Ele

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quer prazer, ele quer sexo, ele quer socar a cara do chefe, ele quer comer o bolo inteiro, ele quer agora. O ID não tem moral, não tem lógica, ele é pura energia pulsante e o desejo selvagem.

Do outro lado, na cobertura, vive o super.

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O supergo é uma mistura da sua avó católica com o promotor de justiça sádico. Ele segura as tábuas da lei, a moral, os bons costumes e o que os vizinhos vão pensar.

Ele te julga 24 horas por dia. Se você pensar em falta na academia, o supergo sussurra: "Ah,

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você é um fracassado, indisciplinado e vai morrer sozinho." E quem tá no meio desse fogo cruzado? O ego, o pobre coitado do ego.

A função dele não é te fazer feliz. Já pode tirar isso da cabeça.

A evolução não tá nem aí pra tua felicidade. A função do ego é a

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sobrevivência social. Ele é o diplomata que precisa impedir que o chipanzé, o ID, defec na sala de estar, ao mesmo tempo em que tenta convencer o juiz, o superego, de que tá tudo sob controle.

Você sabe qual o resultado disso?

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Mentiras. Muitas mentiras.

Então, para sobreviver essa pressão insuportável sem ter um colapso nervoso a cada 5 minutos, o ego desenvolveu um pacote de software que a psicologia chama carosamente de mecanismos de defesa, mas você pode

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chamar de filtros do Instagram para a alma. O ego é um editor de vídeos em tempo real, a realidade bruta chegando nos seus olhos, mas antes de você ter consciência delas, o ego, ele já corta as cenas feias, ajusta ali a iluminação, muda a trilha sonora.

Sabe aquela

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discussão que você teve com o seu namorado, então com a sua esposa ou então com um parente seu, onde você foi claramente babaca, mesquinho, infantil e egoísta? Lembra como você conta essa história paraos seus amigos no bar?

De repente, na sua versão editada, você foi a voz da razão, a paciência em pessoa, a

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vítima de um ataque injusto. O ego deletou os frames onde você gritou e deu zoom nas partes que você chorou.

Isso é racionalização. É o ego dizendo: "Eu não falei, foi o mercado que não tava preparado pro meu gênio." Aí, quando a sujeira é grande

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demais para esconder debaixo do tapete, o ego usa sua arma favorita, a projeção. É o velho truque do cinema.

O filme tá rolando dentro da sua cabeça, mas você projeta na tela do vizinho. Você odeia sua própria arrogância.

O ego malandramente faz você ver arrogância em

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todo mundo que você encontra. Nossa, como fulano é cheio de si.

É o que a gente, os reis do umbigo, costumam falar, né? A regra é clara.

Aquilo que mais te irrita nos outros é quase sempre uma confissão do que você recusa a ver em si mesmo. É o ladrão gritando pega

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ladrão para criar a confusão e fugir. O ego, ele cria narrativas.

Ele é um roteirista de novela mexicana. Se você é demitido, ele não diz: "Ah, eu errei.

Eu fui incompetente". O ego diz: "Eles ti inveja do meu talento." Se alguém não te ama, o ego

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não diz: "Ah, eu não sou compatível com essa pessoa". O ego diz: "Ela não sabe o que está perdendo".

Você consegue perceber esses charez maluco do ego? O ego nunca erra.

O ego é o herói injustiçado da epopeia que só existe na sua cabeça. E nós protegemos essa alta

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imagem como se ela fosse um diamante bruto, mas ela é feita de acrílico barato e cola bastão. A gente ri disso porque é trágico.

É o famoso autoengano. Você passa a vida inteira construindo personagem, o cidadão de bem, o intelectual rebelde, a vítima e gasta

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90% da sua energia psíquica defendendo esse personagem de qualquer crítica. A gente não vê a realidade, a gente vê a versão da realidade que confirma que a gente é especial.

Mas aí vem a pergunta de milhão de dólares, aquela que faz o estômago embrulhar. Se o ego é tão

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mentiroso, tão manipulador e tão óbvio, por que que a gente continua acreditando nele? Porque a gente não demite logo esse gerente corrupto e encara de vez os fatos?

A resposta é simples, mas é bastante assustadora. A gente não demite o ego

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porque a alternativa é o abismo. Nós acreditamos na mentira do ego, porque a verdade, a verdade nu e crua sobre quem controla a máquina nos faria sentir como marionete no universo frio e mecânico.

O ego mente para nos dar a doce ilusão de

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que estamos no volante. Mas será que estamos?

Vamos lá. Se você achou que Freud era o estraga prazeres, espera só você conhecer esse filósofo holandês do século X7.

Baru Espinosa. Vamos parar de brincar de casinha

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psicológica e aumentar essa aposta. Vamos falar da ilusão suprema, aquela que faz você estufar o peito e dizer: "Eu sou o dono do meu destino, o capitão da minha alma, senhor do meu universo." Sinto muito lhe informar, mas a

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filosofia a neurociência moderna olham para essa frase e dá uma risadinha meio debochada. A verdade brutal, aquela que faz a gente querer beber numa terça-feira à tarde, é que você é um robô biológico sofisticado, uma máquina de carne, eletricidade e hormônios que

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acha que tem livre arbítrio apenas porque o software de simulação é muito bem feito. Espinoza, esse holandês simpático que foi escomungado da igreja por dizer verdades inconvenientes lá no século X7, ele já cantava essa pedrada com um conceito de determinismo

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psíquico. Ele dizia que os homens se jogam livres apenas porque são conscientes de suas ações, mas ignorantes das causas que eles determinam.

Pensa aqui comigo rapidão. Você não escolheu gostar de chocolate ou então se sentir atraído por pessoas com

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problemas emocionais que parecem com seus pais ou então tem medo de baratas. Essas coisas foram instaladas no seu hardware pela genética, pela evolução, pela cultura.

Espinosa chamava isso de Conatus, um impulso cego e reprimível de

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perseverar na existência. Você não tem desejos.

Os desejos é que tem você. O desejo te atravessa, te usa como um veículo e segue adiante.

Mas o seu ego, aquele sequestrador mentiroso que a gente estava conversando antes, ele não pode admitir que ele é apenas um

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passageiro. Então o que que o ego faz?

Ele corre para pegar o microfone. Hum.

Vamos pensar num exemplo prático, estilo vida real. Imagine que você tá no trânsito e um motoboy vai e chuta o seu retrovisor.

O que acontece? Em milésimos de segundo, a sua mídala cerebral sequestra o sistema, imundo seu sangue

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de cortisol e adrenalina, suas pupilas dilatam e você sente uma fúria assassina. Você escolheu isso?

Você abriu o menu de opções no seu cérebro, rolou a barra de horlagem e clicou raiva homicida. Não, lógico que não.

A raiva aconteceu com você, da mesma forma que a

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chuva acontece com asfalto. Você foi um mero espectador químico.

Mas é aqui que a mágica do autoengano acontece. Segundos depois do evento, o ego assume controle e cria narrativa.

Ah, eu fiquei bravo porque ele está errado. Eu exijo

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respeito. Eu sou um cidadão de bem.

O ego é aquele cara que tropeça na rua, cai de cara no chão e para não passar vergonha começa a fazer reflexões como se fosse tudo planejado. Ele se apropria de uma reação automática e colala o selo de minha personalidade, minha escolha.

A

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neurociência contemporânea, com gente brilhante, assustadora, como o filósofo alemão Thomas Minger, chama isso de o túnel do ego. Messenger argumenta que o eu não é uma coisa, não é um homenzinho pilotando o cérebro.

O eu é um processo,

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é uma simulação. Imagina que você tá usando óculos de realidade virtual desde que você nasceu.

Esses óculos projetam um mundo coerente com cores, sons e significados. Mas para que a navegação seja eficiente, o sistema cria um avatar no centro da simulação.

Esse avatar é

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você. O problema é que você nunca tira os óculos.

Você vive dentro desse túnel de representações achando que tá em contato direto com a realidade, mas está apenas interagindo com os ícones na área de trabalho da sua mente. Nós somos prisioneiros de uma alucinação evolutiva.

O cérebro cria a sensação de

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identidade porque é útil paraa sobrevivência, não porque é verdade. Um organismo que acha que é alguém cuida melhor de si mesmo do que um organismo que se sente parte de uma sopa cósmica.

O ego é uma ferramenta de sobrevivência que ganhou vida própria e convenceu o operador de que a ferramenta é o mestre.

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Isso dá um pouquinho de vertigem, né? Uma náusea sutil.

Se os meus pensamentos surgem do nada fruto de sinapses que eu não controlo, se as minhas emoções são tempestades químicas que eu não previ e se as minhas escolhas são apenas o

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resultado inevitável de causas anteriores, então quem é que tá vivendo a minha vida? É nesse momento em que você começa a perceber que a frase "Eu penso" é gramaticalmente incorreta.

O certo seria dizer: "Há pensamentos acontecendo

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aqui". Mas viver com essa consciência de que somos marionetes do universo é insuportável.

É frio demais, é vazio demais. Nós precisamos desesperadamente de um roteiro, de um papel fixo, de uma máscara para colar na cara e dizer:

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"Eis-me aqui! Isso aqui sou eu".

E é justamente por causa desse pavô do vazio que nós não apenas aceitamos a prisão do ego, nós decoramos a cela com almofadas, colocamos Wi-Fi e chamamos de zona de conforto. E aqui nós damos de cara com

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paradoxo que faria qualquer robô entrar em curto circuito. O filósofo, existencialista francês Jump Paul Sartri, ele do nada vem para nos lembrar que o buraco é muito mais embaixo.

O problema não é que você não é livre. O problema, o terrível,

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nauseiante, suportável problema é que você é livre, ou melhor dizendo, você é livre até demais. Sartricon é aquela frase que soa como uma sentença de morte.

O homem está condenado a ser livre. Essa frase ela me pega muito.

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Condenado. Condenado a ser livre.

Percebe o peso dessa palavra? Condado?

Não é uma dádiva, é uma pena perpétua. É, é como se fosse uma maldição.

Porque se você é livre, meu querido, você não tem mais desculpas. Se você é livre, a

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culpa da sua vida medíocre, do seu casamento morno, da sua carreira frustrada, não é do capitalismo, não é de Deus, não é do trauma de infância, é sua. É inteiramente, dolorosamente sua.

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Isso causa que os existencialistas chamam de a náuseia. A náusea não é aquela vontade de vomitar depois de comer coxinha de rodoviária.

A náusea é uma vertiga existencial. É aquele momento, aquele insight que te tira o sono de madrugada ou então vem

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numa tarde chuvosa de domingo. É aquele momento que você percebe que nada, absolutamente nada, te obriga a continuar sendo quem você é.

Você poderia levantar agora, largar a sua família, seu emprego, mudar de nome, virar monge no Tibet, virar um dançarino de tango na Argentina ou então vender

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artesanato em Cumuru Xatiba. O abismo das possibilidades se abre debaixo dos seus pés.

Você pode fazer qualquer coisa e isso é aterrorizante. O excesso de liberdade é paralisante.

Então o que que a gente faz diante desse abismo

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vertiginoso? A gente corre de volta pra cela.

A gente implora pro ego trancar a porta. A gente recorre ao que Sart chamou de má fé.

A má fé é a mentira que contamos para nós mesmos para fugir da responsabilidade de sermos livres. é o ato de fingir que

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somos uma coisa, um objeto com propriedades fixas em vez de uma consciência fluída e indeterminada. É quando você diz: "Ah, eu não posso falar em público porque eu sou tímido".

Mas não é bem assim. Você não é tímido.

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Você só tá escolhendo performar o comportamento da timidez naquele momento, porque é mais seguro do que arriscar se expor. Deixa eu te dar um exemplo pessoal.

Dentro do meu círculo familiar, eu fico mais calado. Eu tenho um comportamento mais introspectivo.

No meu círculo de amigos, eu sou

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brincalhão, faço piada, falo besteira para caramba. No meu círculo profissional, eu preciso ser certeiro, preciso ser sério, eu preciso ser eficaz.

Então, quem eu sou? Se eu digo que sou um isso de um grupo, então tô dizendo que os outros não sou eu, que os

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outros são falsos, quando na verdade eu sou todos os outros. Eu tenho a liberdade de escolher o que performar dentro de cada grupo.

Nós adoramos rótulos porque somos viciados em transformar todo mundo em estátuas, inclusive nós mesmos. Olha a sua bio nas

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redes sociais, tá tudo lá. Nerd ancioso, pai de pet, torcedor do Flamengo de esquerda, capricorniano e encerra com uma frase de efeito ou então um versículo bíblico que você acha que te representa e pronto, você se reduziu a

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uma lista de ingredientes de supermercados. Você transformou a infinidade do seu ser em um código de barras.

Por quê? Porque ser uma coisa é confortável.

Coisas não precisam tomar decisões. Coisas não sentem culpa.

Você pode jogar a carta da sua personalidade

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para justificar qualquer coisa. Ah, eu sou passado para trás porque eu sou tímido.

Ah, eu sou mal educado porque eu sou muito sanguíneo. Ah, eu pulei a seca porque eu sou de escorpião.

Isso é se reduzir a uma pedra. Uma pedra não sofre de ansiedade porque ela simplesmente é

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uma pedra e nada além disso. Na verdade, o seu sonho secreto é ter a paz de espírito de um paralelepípedo.

O ego é o arquiteto dessa prisão de segurança máxima. Ele te vende uma identidade fixa, como se fosse um produto de luxo com slogan: "Seja você mesmo." Mas o que

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ele quer dizer é: "Seja esse personagem previsível que montamos para você não surtar". Nós vestimos nossas neuroses como se ela fosse um moletom velho, quentinho e com um cheirinho de travesseiro.

Ah, eu sou assim mesmo. Eu tenho um gênio forte?

Não, meu anjo,

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você não tem um gênio forte. Você é só um adulto mal educado que se recusa a amadurecer.

Mas chamar isso de personalidade tezenta do trabalho ercúlio de mudar. Nós preferimos a infelicidade conhecida do que a felicidade incerta.

Preferimos ficar na

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cela reclamando da comida do frio do que sair pro campo aberto onde venta muito e não tem mapa. A identidade é uma covardia organizada.

É o medo de acordar amanhã e não saber quem somos. Então, a gente decora o nosso roteiro, repetimos as mesmas piadas, as mesmas reclamações,

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os mesmos erros e chamamos esse lup eterno de minha vida. E você defende a sua essência com unhas e dentes, briga com quem ousa te definir de forma diferente.

Mas no fundo, bem no fundo, você sabe que essa essência ela é só fumaça. Você sabe quando você tá

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atuando. E o cansaço que você sente no final do dia não é físico, é o cansaço de segurar a máscara, o peso insuportável de fingir que essa construção social frágil é uma rocha na palável.

Mas a relação com esse carcereiro é mais profunda, mais visal e

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muito mais doent que o medo da liberdade. Não é só que a gente tem medo de sair.

A verdade, aquela que a gente esconde até na terapia, é que a gente sente um prazer inconfensável em ficar. Não é só covardia, é um amor perverso.

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Existe uma parte de você que não quer a cura, que não quer a solução, porque a solução significaria o fim do drama que te faz sentir um protagonista. Agora eu preciso que você seja brutalmente honesto comigo.

Vamos fazer um teste rápido. Pensa naquele problema

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que você reclama há anos. Aquele emprego que suga sua alma, aquele relacionamento tóxico que vai e volta feito yoyô.

Aquela procrastinação que te impede de escrever o livro que você jura que vai escrever. Pensou?

Beleza. Agora imagina

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que eu tenho uma varinha mágica e puf, o problema sumiu, acabou. Amanhã você acorda resolvido, leve, sem essa âncora te arrastando no asfalto.

Qual é a primeira sensação que vem? Alívio, tá?

Talvez. Mas depois de um tempo, se você

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for bem honesto, você vai sentir um vazio gelado, uma espécie de luto e pior ainda, uma irritação profunda. Você já percebeu como que a gente fica furioso quando a gente tá lá todo satisfeito e reclamando da vida?

Aí vem aquele amigo otimista, o grat luz das ideias,

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insuportável. Aí ele ousa oferecer uma solução prática.

Você tá lá todo contente dizendo: "Ah, eu tô triste, a minha vida é um caos". Ah, ele vai e te responde: "Poxa, por que você não tenta fazer terapia, acordar mais cedo, beber

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mais água?" A sua vontade não é de agradecer, a sua vontade é apertar o pescoço dele. Por quê?

Porque ele tá ameaçando tirar de você o seu brinquedo favorito, a sua dor. Então nós chegamos ao coração sangrento do problema.

Nós chegamos ao maravilhoso escritor da literatura clássica russa, Fiodor

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Doyevski, e é o seu homem do subsolo. Eu sei que eu já falei sobre esse livro em outro vídeo, mas é que dá para tirar tanta coisa boa da literatura que cada livro é uma viagem filosófica intensa.

Dostoyevski era um escritor que entendia alma humana do mesmo jeito que um

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legista entende de autópsia. Ele escreveu o manual definitivo da nossa loucura em memórias do subsolo.

O narrador desse livro é um sujeito mesquinho, invejoso, doente e miserável. Mas o que torna ele tão fascinante não é a miséria dele, é o amor que ele tem pela própria miséria.

Tem uma passagem

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no livro que é genial, onde ele descreve o prazer de ter uma dor de dente. Ele geme dói, mas para infernizar a vida da família.

Ele diz que o homem gosta de criar problemas. Ele ama o sofrimento.

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Isso é que eu chamo de síndrome de Estocolmo com o próprio eu. Nós fomos sequestrados pelo próprio ego, jogados no porta-malas e depois de tanto tempo no escuro, começamos a achar que o sequestrador é charmoso.

Nós nos apaixonamos pelo carcereiro. E por que

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fazemos isso? Porque o sofrimento nos dá a importância.

O ego morre de medo de ser comum. Ele prefere ser tragicamente infeliz do que ser anonimamente saudável.

Pense bem, quem é você sem o seu trauma? Quem é você sem sua história

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de superação que nunca termina? Quem é você sem a sua luta?

Se tirarmos a sua depressão, a sua ansiedade, a sua revolta contra o sistema, o que que sobra? O medo terrível de ser apenas mais um.

A felicidade é banal.

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A felicidade é silenciosa. Pessoas felizes não escrevem questões no Facebook de madrugada.

Pessoas felizes não são protagonistas de dramas épicos. E o seu ego, ele quer ser protagonista.

Ele prefere ser o rei da montanha de lixo a ser o cidadão comum na planície

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Florida. Nós cultivamos nossas dores como se elas fossem animais de estimação.

Nós damos comida para nossa neurose e levamos ela para passear e apresentamos ela pros amigos. Ó, olha aqui a minha insônia.

Viu como ela é rebelde? Ohó, olha a minha incapacidade de amar.

Olha como ela é complexa. Olha

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a minha agressividade passiva agressiva. Como já está crescendo, já tem três aninhos.

Isso dá de companhia dá uma vida inteira. Nós usamos a dor como maquiagem.

Acreditamos que o sofrimento nos dá profundidade, nos deixa mais interessante, nos dá uma alma de

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artista. Mas isso é mentira.

O sofrimento não te deixa mais profundo, ele só te deixa mais sofrido. Mas o ego te convence que essa dor é sua identidade.

É o tal do gozo na psicanálise, um prazer estranho, doloroso, que a gente extrai do sintoma.

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Deixa eu te explicar esse termo rapidão para você não ficar chocado. O termo gozo no sentido psicanalítico lacaniano é aquilo que começa onde o prazer devia parar.

O gozo psicanalítico é o prazer misturado com dor. Ele é excessivo, ele é autodestrutivo, ele tá sempre ligado

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ao sintoma, ele resiste à razão, ao bem-estar e sustenta o ego e a identidade neurótica. Vamos lá.

Tipo assim, você sabe que aquele comportamento te faz mal, você sabe que stalquear o ex no Instagram é igual a beber veneno, mas você vai lá e faz com

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um prazer sádico, sentindo cada gota de armagura descer pela garganta. Você chega até a filosofar a respeito, da uma de Decart.

Ah, como eu sofro, logo existo. Nós defendemos a nossa prisão com unhas e dentes.

Se alguém abre a porta da cela, a gente vai, corre lá e

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fecha, gritando e dando bronca. Não me tira daqui.

Eu levei anos decorando essa parede com os meus lamentos. Eu sou o meu sofrimento.

Essa é a grande tragédia. O maior manipulador da sua vida te convenceu de que para ser alguém você precisa doer.

Ele te vendeu a ideia

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de que a cura é a morte da sua personalidade. E enquanto você acreditar que a sua identidade é a sua dor, você nunca vai ser livre.

Você vai continuar sendo o refém que ilustra as botas do sequestrador e chama isso de amor próprio. Mas e se a gente parasse?

E se

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a gente tivesse a coragem insana de soltar o osso? E se a gente começasse a tirar essas camadas de dor, de traumas, de histórias mal contadas, de orgulho ferido, o que aconteceria se a gente descascasse essa cebola podre até o fim?

Será que sobraria alguma coisa no

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centro? Ou será que nosso maior medo não é a dor, mas sim o vazio absoluto que ela esconde.

Erricksen, um dramataguês que provavelmente não era convidado para muitas festas porque deixava todo mundo deprimido, ele escreveu uma peça chamada

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Pier Gint. Nela, o protagonista decide descobrir que ele realmente é.

Então, ele usa a metáfora da cebola. Ele começa a descascar as camadas uma a uma, procurando o caroço, a semente, o núcleo duro e indivisível da sua personalidade.

Bora fazer isso juntos. Bora brincar de

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o que sobra. Vamos lá.

Tira o seu emprego. Vai lá, rasga o seu cartão de visita, o seu cargo de gerente séor das planilhas inúteis, ou então o empreendedor de palco.

Vamos lá. Quem é você?

Hum. O ego chega a tremer, né?

Porque o ego adora um crachá. Mas bora

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continuar. Vamos lá.

Agora tira o seu nome, esse som pelo qual você atende, como se você fosse um bicho adestrado. Tira a sua nacionalidade, o seu time de futebol, a sua ideologia política.

Tire o eu sou de esquerda, sou de direita, sou conservador, sou progressista. Tudo isso são roupas que você vestiu durante

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a vida, não é a sua pele. Agora vamos mais fundo.

Tira o seu corpo. Imagina que você é apenas uma consciência flutuando num frasco de formol.

Você ainda é você sem o tanquinho que você não tem ou sem a calvice que você finge não ter? Hum.

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Beleza. Se você sente que você ainda tá aí, então tira suas memórias.

Vamos lá. Deleta aquele verão de 2012.

Deleta o trauma da terceira série. Deleta o dia do seu casamento.

Se você não lembrasse de nada disso, você deixaria de existir ou sobraria uma

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presença muda e confusa? Piergint descasca a cebola até o fim e descobre a piada cósmica mais aterrorizante de todas.

A cebola não tem caroço, ela é feita apenas de camadas. Quando você tira tudo, o que sobra no meio não é uma

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pérola brilhante do eu verdadeiro. O que sobra é o [música] nada, o vácuo, o silêncio absoluto.

E é aqui que o bicho pega. É aqui que você entende por defendemos o ego com tanta violência.

O medo da morte não é o medo do coração

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parar de bater. O universo ele recicla a matéria o tempo todo.

Os seus átomos eles não estão nem aí para isso. O verdadeiro pavor, aquele que te faz acordar suado no meio da noite, é o medo da aniquilação do ego.

É o terror de descobrir que se tirarmos as histórias que contamos não sobra ninguém em casa.

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O ego sabe que ele é uma ficção. Ele sabe que ele é um personagem ventado.

E como todo personagem, ele morre de medo do escritor para descrever. Por isso ele grita.

Por isso ele cria dramas, por isso que ele inventa problemas para fazer barulho e provar que ele ainda tá

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vivo. O silêncio é a morte do ego.

Mas a anatomia desse desastre não estaria completa se o nosso querido Kaung seu conceito de sombra. Lembra do apartamento de ossos que escrevemos lá no começo, onde o ego mantém você em cativeiro?

Então vamos lá. O ego decorou essa prisão como se fosse uma sala de

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estar. Colocou quadros bonitos, trocou o sofá e recebe as visitas com um sorriso falso no rosto.

Essa é a persona, a máscara social, cidadão de bem. Mas essa casa tem um porão, o porão úmido, sem luz, onde o ego jogou tudo aquilo que

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ele julgou que não prestava, que podia contradizer a persona. É nesse porão trancada sete chaves que vive o monstro, a sombra.

Lá tão a sua inveja misquinha, a sua crueldade, as suas fantasias sexuais que fazia até André Sorak cor de

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vergonha, a sua preguiça, a sua covardia, a sua agressividade. O sequestrador, o ego, fala para você: "Não olhe para lá, lá embaixo vive o demônio." E você passa a vida gastando uma energia colossal, segurando a porta

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do porão, com medo de que esse monstro escape e destrua a sua reputação no Instagram. Mas sabe qual é a ironia suprema?

Esse monstro trancado lá embaixo, ele também é você. A sua sombra é tão parte de você quanto seu sorriso na foto de perfil.

E Yung, com aquela

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cara de professor que não dá meio ponto para ajudar aluno, ele nos dá um ultimato. Você nunca será livre enquanto não descer no porão e abraçar o monstro.

A tal da iluminação não é imaginar figuras de luz e ficar ouvindo arpas tocando em posição de lótos até a perna

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ficar dormente. A iluminação é tornar a escuridão consciente, é olhar paraa sua própria mesquinhez, a sua pequenez, a parte que você esconde até de você mesmo e dizer: "Oi, eu vejo você.

Você também sou eu." Enquanto você

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negar a sua sombra, ela vai controlar você pelos bastidores. Você vai projetar sua maldade nos outros.

Vai ver inimigos em toda parte porque não tem coragem de olhar no espelho. Aqui é o momento de tensão máxima.

Você consegue perceber a fraude? Você passou a vida inteira

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protegendo uma alucinação. Você protege a sua imagem como se ela fosse a sua vida, mas a sua imagem é apenas um reflexo projetado no espelho quebrado.

Agora, diante dessa cebola desfeita, diante das cascas espalhadas no chão e do cheiro forte da realidade que fez

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seus olhos arderem, surge a pergunta final. A pergunta que pode te salvar ou então te enlouquecer de vez.

Se eu não sou as camadas, se eu não sou o meu nome, se eu não sou os meus pensamentos, se eu não sou essa voz neurótica falando na minha cabeça o dia inteiro, então

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quem é que tá ouvindo essa voz? Existe alguém aí dentro que não fala, só observa.

Existe uma presença atrás da máscara, atrás do trauma, atrás do barulho. E encontrar esse alguém é a única rota de fuga desse sequestro do ego.

Então, voltamos para aquela

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pergunta irritante que eu fiz lá no começo do vídeo. Aquele paradoxo que deve estar coçando seu cérebro até agora.

Como sair dessa prisão? Se a prisão é você mesmo?

Se o carcereiro, a cela, o prisioneiro são feitos da mesma matéria psíquica, para onde a gente

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foge? A resposta é tão simples que chega a ser decepcionante.

É uma piada zen que você só entende depois de levar muita paulada da vida. Você não sai, você acorda.

Vamos lá. Esquece essa bobagem de matar o ego.

Isso é papo para guru quântico que vende curso de iluminação

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em 12 vezes no cartão. Você não pode matar o ego.

Se você matar o ego, você vira um vegetal babando no sofá. Você precisa do ego para lembrar o seu CPF, para não atravessar a rua sem olhar para os dois lados, para saber que não deve fazer xixi na planta da sala de estar, mesmo quando não tem ninguém olhando.

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O ego é uma ferramenta útil. O problema não é a ferramenta.

O problema é que você, por preguiça ou medo, deixou a ferramenta virar o próprio mestre de obras. Imagina que o ego é um cachorro, é um viralata caramelo, ansioso, barulhento.

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O que você fez a vida toda foi deixar o cachorro dirigir o seu carro. Então, é óbvio que vocês vão se meter em acidentes de trânsito.

Por isso, a proposta filosófica final, a única saída possível desse sequestro é o que chamamos de desidentificação.

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É tirar o cachorro do volante e colocar ele de volta no banco de trás. Ele vai continuar latindo, vai.

Ele vai chorar, vai pedir biscoito, vai dizer que o caminho tá errado? Com certeza.

Mas agora quem dirige é você.

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Mas quem é esse? Você lembra quando descascamos a cebola e não sobrou nada?

Então aquele nada não é vazio. Aquele nada é espaço, é consciência pura, é o observador.

Bora fazer um exercício agora, sem fechar os olhos. Você

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consegue ouvir a voz na sua cabeça enquanto eu tô falando com você? Isso aconteceu desde que você deu play nesse vídeo, né?

Se você consegue ouvir a voz, isso prova que existem duas entidades aí dentro da sua caixa, a voz que fala e aquele que

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escuta. Você não é a voz, você é o ouvinte.

Você não é o filme passando na tela da mente, você é a tela. O filme pode ser de terror, pode ser de comédia, pode ser um drama chato, um romance meloso, mas a

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tela nunca se queima com o fogo do filme, nem se molha com a chuva da cena. A tela permanece intacta.

Você é a tela, a verdadeira liberdade, aquela que Sartra Espinosa e os budistas tentaram dizer pra gente, não é fazer o que o ego quer. Isso é a escravidão disfaçada de

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prazer. A liberdade suprema é a capacidade de observar o ego tendo o ataque, fazendo pirraça, dando piti e não obedecer.

É quando você sente a raiva subir, o ego começa a gritar: "Vingança! Grite com ele, mande tudo pro inferno.

Finishing! E você, num alto da

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sua posição de observador, olha para esse estil interno e diz: "Eu vejo que você tá bravo, pequeno tirano, mas hoje nós vamos continuar calmos". Então é nesse exato segundo, nesse pequeno intervalo entre o estímulo e a resposta que a corrente se quebra.

O sequestrador

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ele perde o poder, ele continua lá falando besteira, mas agora ele é apenas um rádio ligado numa estação ruim lá no fundo da sala. Você parou de dançar a música dele.

A verdadeira identidade não é uma construção sólida feita de traumas e vitórias passadas. A verdadeira

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identidade é o espaço aberto onde a vida acontece. É um campo de possibilidades.

Sair da prisão não exige que você caminhe em nenhum milímetro. É uma fuga imóvel.

É apenas um deslocamento de percepção. Parar de olhar para o mundo

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através dos óculos sujos do ego e começar a tirar os óculos para enxergar melhor. Assim, eu sei que não é fácil.

O hábito de ser escravo do próprio ego é natural, é viciante, mas a alternativa à liberdade é passar o resto dos seus dias

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defendendo uma imagem que não existe, protegendo uma dor que não é sua e vivendo com medo de um monstro que mora no quarto que você trancou por dentro. o seu sequestrador, ele vai continuar falando, ele vai falar agora mesmo, ele vai te dar vontade de fechar o vídeo ou então de nos comentários escrever que

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tudo isso é uma bobagem pseudofilosófica ou então que o vídeo é longo demais e que você tá bem assim, vai me xingar e por aí vai. Deixa o ego falar, é a natureza dele.

Mas se lembra que a voz do ego pode ser alta e você é livre para

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não ter que escutar ela o tempo todo. A chave dessa prisão, ela sempre teve no seu bolso.

Então tá na hora de deixar o ego falando sozinho e começar a decidir quem você pode ser sem o julgamento do ego. Agora é aquele momento que eu te faço um convite perigoso.

Pensa um pouco

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sobre tudo isso que foi dito. Não aceite nada do que eu disse como verdade absoluta.

A dúvida é o único caminho que a gente tem pra lucidez. Vamos lá.

Reflita sobre o seu próprio sequestrador. Qual é a história triste que o seu ego conta para te manter na coleira?

Qual é a sua dor de estimação

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que você fic alimentando todo dia? Escreve aí nos comentários.

Vamos transformar essa sessão de comentários numa terapia de grupo ou então num hospício organizado. Escreve o que você achou, a que conclusão você chegou ou apenas desabafa.

Nós vamos muito mais longe através do

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diálogo e da troca de ideias do que com certezas absolutas. Se você quiser mostrar pro algoritmo, pro seu próprio ego, que você entendeu o recado, comenta a nossa frase secreta de hoje.

A chave tá no meu bolso. Eu quero ver quem chegou até aqui.

Se esse vídeo causou

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algum tipo de desconforto produtivo, curta esse vídeo, se inscreve no canal e ativa o sininho, porque o algoritmo é outro sequestrador que a gente precisa enganar. Compartilha esse vídeo com aquele seu amigo que ama sofrer ou então com aquele grupo da família onde o ego reina absoluto.

Se você quiser apoiar o

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canal e garantir que a gente continue produzindo essas crises existenciais, considere se tornar um membro do clube paradigmas. Além de ajudar a manter as luzes acesas, você vai ter acesso a uns conteúdos exclusivos que eu tô planejando para botar lá.

Coisa bem legal. Ah, e para

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quem gosta de mergulhar fundo, a lista de todos os livros que eu usei para montar esse roteiro, Frod, Jung, Sart, Dostoevski, tá tudo na descrição do vídeo. Comprando lá, você fica mais inteligente e ainda ajuda o canal.

Dá uma olhada também nos outros vídeos do canal, tem muita coisa boa para te fazer

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perder o sono. E volta no próximo vídeo, porque a gente ainda tem muita casca de cebola para descascar.

Mas como eu sempre digo, eu também posso estar completamente errado sobre tudo isso. Então, pense bem, fique [música] bem e beba água.

No fundo, a gente adora o cativeiro. O

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cceiro é meio babaca de vez em quando, mas tem lá o seu charme. Ele te serve aquela bandeja de coitadismo gorm, te convence de que a sua dor é vip e que ninguém no mundo sofre com tanta elegância quanto você.

É um condomínio fechado de neuros coletiva com vista

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privilegiada pro próprio umbigo. Uma burocracia da alma, onde você carimba a própria sentença todo dia, crente que você tá dando autógrafos.

É ridículo, é patético. O grande Milô Fernandes diria que o homem é o único

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animal que se tranca por dentro e fica gritando pro socorro só para ver se a vizinhança se importa. Mas aí o show acaba.

O palhaço tira maquiagem no camarem frio, as luzes se apagam e no silêncio ensurecedor que

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sobra quando o ego finalmente cala a boca, você descobre a verdade mais brutal e bonita de todas. A porta da prisão nunca existiu.

Você passou a vida inteira esmorrando o ar, implorando liberdade, sem perceber que o único muro

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que te prendia ao ego era a sua própria sombra. Muito obrigado pela teimosia, paciência de ficar até o final.

Agora você pode escolher um vídeo que eu recomendo e um outro que o algoritmo acho que você merece. Aproveita para apertar na bolinha e se inscrever nesse hospício, porque afinal de contas perder

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tempo com qualidade é um privilégio raro, né? Grato pela sua paciência de Jó.

Bom dia, boa tarde, boa noite, boa sorte. Até a próxima.